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segunda-feira, 2 de setembro de 2013

ALIANÇAS QUEBRADAS - POR QUE OS CASAMENTOS FRACASSAM

De quem mesmo é a culpa?

Texto extraído do meu livro: FORTALEZAS NÃO CONQUISTADAS (NO PRELO) 


“E aconteceu que, concluindo Jesus estas palavras, deixou a Galiléia e foi para o território da Judéia, além do Jordão. 2 Seguiram-no muitas multidões, e curou-as ali. 3 Vieram a ele alguns fariseus e o experimentavam, perguntando: É lícito ao marido repudiar a sua mulher por qualquer motivo? 4 Então, respondeu ele: Não tendes lido que o Criador, desde o princípio, os fez homem e mulher 5 e que disse: Por esta causa deixará o homem pai e mãe e se unirá a sua mulher, tornando-se os dois uma só carne?
6 De modo que já não são mais dois, porém uma só carne. Portanto, o que Deus ajuntou não o separe o homem. 7 Replicaram-lhe: Por que mandou, então, Moisés dar carta de divórcio e repudiar? 8 Respondeu-lhes Jesus: Por causa da dureza do vosso coração é que Moisés vos permitiu repudiar vossa mulher; entretanto, não foi assim desde o princípio. 9 Eu, porém, vos digo: quem repudiar sua mulher, não sendo por causa de relações sexuais ilícitas, e casar com outra comete adultério [e o que casar com a repudiada comete adultério]. 10 Disseram-lhe os discípulos: Se essa é a condição do homem relativamente à sua mulher, não convém casar. 11 Jesus, porém, lhes respondeu: Nem todos são aptos para receber este conceito, mas apenas aqueles a quem é dado. 12 Porque há eunucos de nascença; há outros a quem os homens fizeram tais; e há outros que a si mesmos se fizeram eunucos, por causa do reino dos céus. Quem é apto para o admitir admita” (Mt 19.1-12).




            O pastor Josué Gonçalves, um dos maiores especialistas em comportamento familiar do Brasil, é autor de uma frase antológica: “Nenhum sucesso justifica o fracasso da família”. É para se pensar!
Estou no ministério pastoral há pouco mais de uma década e durante esse tempo tenho desenvolvido um trabalho de aconselhamento com casais. Denominei essa prática de Terapia com Casais. Dependendo da agenda da igreja, escolho um dia da semana para atender um casal. Os resultados tem sido animadores.
É uma técnica simples, que evidentemente não foi inventada por mim, e que consiste em distribuir para os cônjuges uma folha de papel em branco. Nessas folhas de papel escrevo a mesma pergunta que é direcionada a ambos: “O que você gostaria que seu cônjuge fizesse para melhorar seu casamento?” Espero cerca de dez minutos até que eles ponham no papel aquilo que acham ser a causa dos conflitos no relacionamento. Duas coisas pude constatar ao longo desses anos: Em primeiro lugar, observei que as mulheres são mais precisas em nomear aquilo que provoca desequilíbrio no relacionamento conjugal. Em segundo lugar, pude observar também que a maioria esmagadora dos problemas são causados pelos homens!
Pois bem, depois que o casal me devolveu suas anotações, tomo em mãos um pequeno esboço, que é um resumo da literatura especializada sobre o assunto, para dar um norte à minha técnica de aconselhamento. Geralmente são máximas encontradas sobre o assunto tanto em literaturas evangélicas como secular.
Segue um desses esboços:
1.             “Os casamentos exemplares que se conhece foram conquistados”. Esse princípio ajuda o casal, principalmente as mulheres, a verem o relacionamento de uma forma real e não apenas romântica. O casamento não veio pronto e acabado, mas é algo que se constrói dia a dia com os tijolos do amor, da renúncia e do compromisso.
2.             “As discussões não terminam quando uma das pessoas vence”. Procuro mostrar ao casal que não há vencedor, mas somente vencidos quando o relacionamento se tornou uma guerra. É preciso parar com essa ideia de medir forças.
3.              “Se não houver desavenças, não haverá atrito e agitação suficiente para o amadurecimento”. Alguns ajustes são necessários no casamento e até mesmo inevitáveis, mas eles devem servir de acomodação para o relacionamento e não em um cabo de guerra que está sempre tenso.
4.             “Quando deixamos de responsabilizar o parceiro pela satisfação de nossas necessidades, tudo muda”. Nos completamos no outro. Não devemos responsabilizar o outro sozinho pelo sucesso ou insucesso do casamento. Devemos assumir a nossa parte.
5.             “Quando transferimos a energia e a atenção criadas para um novo romance, para um compromisso mais profundo ou verdadeiro e intimidade no casamento, o desejo de estar com outras pessoas perde o seu domínio sobre nós”. Uso esse princípio para fomentar a intimidade do casal, pois isso funciona como um muro de proteção contra a infidelidade conjugal. Um casal que compartilha intimidade, cumplicidade e amor não precisa de um ter um “caso” para se realizar.
6.             “Há momentos difíceis em todos os casamentos”. Sim, há momentos difíceis no seu casamento e também no meu. Devemos estar prevenidos sobre isso para não pensar em abandonar o barco. A tormenta pode passar logo.
7.             “Quando negligenciamos nosso relacionamento em prol dos filhos, não estamos atendendo as necessidades do casamento”. Os filhos são importantes e tem seu lugar dentro do casamento, mas não podem suplantá-lo.
8.             “Todos temos expectativas. Mas se não conseguirmos ter flexibilidade em relação a como achamos que tudo deve acontecer, estamos nos predispondo a muitas frequentes decepções”. Todos nós temos um ideal quando nos casamos e muitas vezes vemos esse idealismo esvaindo-se. É justamente nesse momento que devemos avaliar a nossa visão idealista do casamento para uma mais realista. Em Cristo Jesus todos as nossas expectativas são supridas.
9.             “Amar alguém não significa que nunca vamos discordar, nem que resolver os conflitos com ela seja fácil”. Os conflitos devem servir de adubo para sedimentar o casamento.
10.         “Os casais mais bem sucedidos não negam as suas diferenças”. O homem é diferente da mulher anatomicamente e também psicologicamente. É importante conhecer essas diferenças para evitar discussões fúteis.
11.         “Mesmo as pessoas com os melhores casamentos às vezes se perguntam se não se casaram com a pessoa errada!” É possível que você já se tenha feito esse questionamento! Quando nos ajustamos à palavra de Deus, acabamos descobrindo que de fato casamos com a pessoa certa. Mas isso serve para mostrar que a vida a dois não é simples, embora seja recompensadora.
12.         “No início do casamento, muita gente tenta mudar o parceiro para ficar mais parecido consigo. Demora um tempo para se perceber que dar espaço para as diferenças existirem de maneira pacífica é uma utilização muito melhor da preciosa energia da vida”. As diferenças existem e devem continuar existindo. Ninguém pode anular o outro, mas essas diferenças não devem ser causas de desavenças.
13.         “Você ganha muitos pontos resistindo à tentação de provar de que está certo”. Acredito que muita energia é gasta pelos cônjuges tentando provar que o outro é quem está errado.
14.         “Os maus hábitos enfraquecem e acabam morrendo quando paramos de favorecê-los”. Há bons e maus hábitos em todos os relacionamentos, mas o cultivo daquilo que é saudável oxigenará o casamento.
15.         “Bom sexo não garante um ótimo casamento, mas ajuda bastante”. Muitos conflitos nos casamentos vêm por conta de uma vida sexual deficiente. Um dos cônjuges não corresponde às necessidades sexuais do outro. A prática pastoral me mostrou que há dezenas de razões para isso. No caso da mulher não atender as necessidade sexuais do marido, geralmente a falta de afetividade por parte dele é a causa do problema.
16.         “Possessividade e ciúme são frutos do medo, não do amor.” Alguém já disse que o ciumento envenena a comida e depois come. O ciúme é fruto da insegurança e falta de autoestima. Às vezes é provocado pela infidelidade do ciumento, que está projetando no outro cônjuge aquilo que ele mesmo está fazendo.
17.         “Há violência no silêncio quando ele é usado como arma”. A comunicação é vital para a construção de um casamento saudável.
18.         “Há diferença entre sexo e intimidade”. Geralmente os homens sabem fazer sexo, mas não sabem ser íntimos. Pode haver relacionamentos onde só há sexo e não intimidade e nesse caso esse casamento está em crise!
19.         “Nada arrefece o desejo sexual mais rápido do que diferenças não resolvidas”. Um casamento equilibrado precisa saber tratar prioritariamente com os pontos conflitantes.

Pois bem, além desse material que pode ser encontrado no livro Cem Fatos que Não Me Contaram Antes do Casamento, eu também utilizo vários outros princípios que possuo anotado em uma agenda que mantenho para casais.
Mas qual a razão de expor aqui esse assunto? Para mostrar que o casamento é uma via de mão dupla e que as responsabilidades precisam ser divididas. Dizendo isso de uma outra maneira: tenho observado que muitos casamentos tem sido trincados e até mesmo desmanchados quando não se leva em conta os princípios que regem a vida dois. E o que é pior: apenas uma das partes arca com a responsabilidade pelo fracasso do relacionamento!  Geralmente a parte mais fraca – as mulheres!
Em se tratando de ministério pastoral, a Convenção da minha denominação, tomando por base a cláusula de exceção de Mateus 19.1-12, aprovou recentemente uma norma onde se lê que em caso de infidelidade conjugal por parte da esposa, o ministro pode se divorciar e continuar no ministério. É evidente que um novo casamento foi assegurado pelo Senhor para aqueles que foram vítimas de uma infidelidade, incluindo um ministro da Palavra.  A pergunta que se faz é: teria esse obreiro, após esse processo traumático, condições morais de oficiar como ministro da palavra? A resposta a essa pergunta não pode ser dada de uma forma tão simples.

Em se tratando de Ministros do Evangelho, o problema se concentra em uma questão de ordem mais moral do que legal. Embora a lei civil reconheça a legalidade de tal união, como o ministro lidará com as consequências morais dessa aliança quebrada? Para os que são de fora ficará sempre a pergunta: De quem foi a culpa ou o que de fato motivou o desmoronamento desse relacionamento?
O escritor e eticista Alan Pallister expõem esse problema da seguinte forma:
“Nesse contexto, podemos considerar a questão do divórcio de um pastor e se essa situação o desqualifica para esse ministério específico. Em 1 Coríntios 9.27, o apóstolo Paulo deixa claro que existem situações de ordem moral que desqualificam um pastor para seu ministério. A pessoa que ofende pode ser perdoada, mas também pode ter que sofrer consequências permanentes por causa do seu pecado – por definição, a desqualificação é permanente. Thielicke se debruça sobre uma situação em que um pastor se divorcia e é considerado a ‘parte inocente’. Nesse caso, o ‘ponto de vista externo’ deve ser levado em consideração. De acordo com ele: “Isso é muito mais do que uma questão de manter as aparências. A pessoa que desempenha uma função pública não está em uma posição que permita argumentar a plausibilidade dos seus motivos e, muito menos, de revelar o pano de fundo de sua vida pessoal íntima. Ao contrário, está em uma posição em que os fatos, que agora são de conhecimento público (como no caso de um divórcio), estão à mercê de qualquer interpretação que o público lhes dê, e o pastor não tem a possibilidade de controlar os julgamentos que fazem antes ou depois do fato nem para impedi-los de lançar dúvidas sobre a sua credibilidade de seu ofício e mensagem”. É obvio, admitimos que a pessoa, após a resolução do seu problema, possa desempenhar outro tipo de função na igreja ou em uma outra organização cristã. Mas a impossibilidade de um pastor nessa situação continuar na função pastoral, mesmo que não seja explicitamente afirmada na Bíblia, parece-nos uma posição clara a partir dos princípios éticos que a Bíblia ensina”.[1]
Não objetivo nesse capítulo fazer um tratado sobre o divórcio de pastores, mas chamar a atenção para o fato de que essa é uma área onde muitas batalhas têm sido perdidas. Muitos dos guerreiros tombados são ministros da palavra. Muitas vezes a busca desenfreada pelo sucesso e pela fama faz com que o ministro, em especial os pregadores e cantores, se lancem numa alucinante turnê de pregação e shows. O ministério sai da ala pastoral para a profissional. Perde a vocação para abraçar o carreirismo. A sua eficácia passa a ser medida pelo número de convites que recebem. A agenda e não mais a família ditam as regras de seu ministério. Esquecem a esposa, os filhos e a congregação local para cumprir o ‘ministério’ para o qual foram ‘revelados’. As consequências não demoram a aparecer – perdem a família e trincam o ministério. O mesmo pode ser dito das cantoras.
De quem é a culpa? A esposa, que foi praticamente abandonada e até mesmo preterida, é a grande vilã. Uma explicação escapista e simplista. Conheço colegas que ficam meses fora de casa e, portanto, longe do convívio da esposa e dos filhos.  A solução, portanto, não é simplesmente lançar a culpa na esposa infiel e continuar no ministério como se nada tivesse acontecido. É preciso repensar esse conceito distorcido de ministério. Como culpar uma esposa, sem ao mesmo tempo se sentir culpado, quando a causa de uma separação está na falta de afetividade provocada por uma vida ausente do lar? A alegação de que se está fazendo a obra de Deus não cabe nesses casos. A Bíblia diz que quem casou cuida de como agradar a esposa e dessa forma está dividido (1 Co 7.33,34). Quer um ministério itinerante e longe de casa? Então não case! O apóstolo Paulo não serve como modelo que justifique esse tipo de ministério, pois o mesmo era solteiro (1 Co 7.7). Da mesma forma Filipe também não. Ele foi por algum tempo um evangelista itinerante, mas andava com a sua família (At 21.8,9).
Sabedor desses fatos o ministro deveria priorizar a sua família, saindo uma vez por mês ou no máximo duas e sempre que possível acompanhado da esposa. É inviável esse tipo de ministério? Acho que não – inviável seria possuir um ministério trincado por um casamento desfeito.  
Não dá para transigir nesse assunto e permanecer de pé na batalha.





[1] PALLIESTER, Alan. Ética Cristã Hoje – vivendo um Cristianismo coerente em uma sociedade em mudança rápida. Shedd Publicações, São Paulo, 2005.