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quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Somente para pastores

Um Profeta Velho
Quando o ministério perde o seu encanto


Texto extraído do meu próximo livro: FORTALEZAS NÃO CONQUISTADAS



“1 Eis que, por ordem do Senhor, veio de Judá a Betel um homem de Deus; e Jeroboão estava junto ao altar, para queimar incenso. 2 Clamou o profeta contra o altar, por ordem do Senhor, e disse: Altar, altar! Assim diz o Senhor: Eis que um filho nascerá à casa de Davi, cujo nome será Josias, o qual sacrificará sobre ti os sacerdotes dos altos que queimam sobre ti incenso, e ossos humanos se queimarão sobre ti. 3 Deu, naquele mesmo dia, um sinal, dizendo: Este é o sinal de que o Senhor falou: Eis que o altar se fenderá, e se derramará a cinza que há sobre ele. 4 Tendo o rei ouvido as palavras do homem de Deus, que clamara contra o altar de Betel, Jeroboão estendeu a mão de sobre o altar, dizendo: Prendei-o! Mas a mão que estendera contra o homem de Deus secou, e não a podia recolher. 5 O altar se fendeu, e a cinza se derramou do altar, segundo o sinal que o homem de Deus apontara por ordem do Senhor. 6 Então, disse o rei ao homem de Deus: Implora o favor do Senhor, teu Deus, e ora por mim, para que eu possa recolher a mão. Então, o homem de Deus implorou o favor do Senhor, e a mão do rei se lhe recolheu e ficou como dantes. 7 Disse o rei ao homem de Deus: Vem comigo a casa e fortalece-te; e eu te recompensarei. 8 Porém o homem de Deus disse ao rei: Ainda que me desses metade da tua casa, não iria contigo, nem comeria pão, nem beberia água neste lugar. 9 Porque assim me ordenou o Senhor pela sua palavra, dizendo: Não comerás pão, nem beberás água; e não voltarás pelo caminho por onde foste. 10 E se foi por outro caminho; e não voltou pelo caminho por onde viera a Betel. 11 Morava em Betel um profeta velho; vieram seus filhos e lhe contaram tudo o que o homem de Deus fizera aquele dia em Betel; as palavras que dissera ao rei, contaram-nas a seu pai. 12 Perguntou-lhes o pai: Por que caminho se foi? Mostraram seus filhos o caminho por onde fora o homem de Deus que viera de Judá. 13 Então, disse a seus filhos: Albardai-me um jumento. Albardaram-lhe o jumento, e ele montou. 14 E foi após o homem de Deus e, achando-o sentado debaixo de um carvalho, lhe disse: És tu o homem de Deus que vieste de Judá? Ele respondeu: Eu mesmo. 15 Então, lhe disse: Vem comigo a casa e come pão. 16 Porém ele disse: Não posso voltar contigo, nem entrarei contigo; não comerei pão, nem beberei água contigo neste lugar. 17 Porque me foi dito pela palavra do Senhor: Ali, não comerás pão, nem beberás água, nem voltarás pelo caminho por que foste. 18 Tornou-lhe ele: Também eu sou profeta como tu, e um anjo me falou por ordem do Senhor, dizendo: Faze-o voltar contigo a tua casa, para que coma pão e beba água. (Porém mentiu-lhe.) 19 Então, voltou ele, e comeu pão em sua casa, e bebeu água. 20 Estando eles à mesa, veio a palavra do Senhor ao profeta que o tinha feito voltar; 21 e clamou ao homem de Deus, que viera de Judá, dizendo: Assim diz o Senhor: Porquanto foste rebelde à palavra do Senhor e não guardaste o mandamento que o Senhor, teu Deus, te mandara, 22 antes, voltaste, e comeste pão, e bebeste água no lugar de que te dissera: Não comerás pão, nem beberás água, o teu cadáver não entrará no sepulcro de teus pais. 23 Depois de o profeta a quem fizera voltar haver comido pão e bebido água, albardou para ele o jumento. 24 Foi-se, pois, e um leão o encontrou no caminho e o matou; o seu cadáver estava atirado no caminho, e o jumento e o leão, parados junto ao cadáver. 25 Eis que os homens passaram e viram o corpo lançado no caminho, como também o leão parado junto ao corpo; e vieram e o disseram na cidade onde o profeta velho habitava. 26 Ouvindo-o o profeta que o fizera voltar do caminho, disse: É o homem de Deus, que foi rebelde à palavra do Senhor; por isso, o Senhor o entregou ao leão, que o despedaçou e matou, segundo a palavra que o Senhor lhe tinha dito. 27 Então, disse a seus filhos: Albardai-me o jumento. Eles o albardaram. 28 Ele se foi e achou o cadáver atirado no caminho e o jumento e o leão, parados junto ao cadáver; o leão não tinha devorado o corpo, nem despedaçado o jumento. 29 Então, o profeta levantou o cadáver do homem de Deus, e o pôs sobre o jumento, e o tornou a levar; assim, veio o profeta velho à cidade, para o chorar e enterrar. 30 Depositou o cadáver no seu próprio sepulcro; e o prantearam, dizendo: Ah! Irmão meu! 31 Depois de o haver sepultado, disse a seus filhos: Quando eu morrer, enterrai-me no sepulcro em que o homem de Deus está sepultado; ponde os meus ossos junto aos ossos dele. 32 Porque certamente se cumprirá o que por ordem do Senhor clamou contra o altar que está em Betel e contra todas as casas dos altos que estão nas cidades de Samaria” ( 1 Reis 13.1-32).




Se há uma passagem bíblica que me deixa perplexo, esta é uma delas! Ela me impressiona pela sua dramaticidade! O texto fala de um homem de Deus e o profeta velho! Quando lemos este texto, de imediato a nossa atenção se firma no homem de Deus, para quem o sobrenatural parecia algo extremamente natural.  Ele simplesmente falava e as coisas aconteciam: o altar vai rachar e o altar de fato se fendia; Deus vai levantar um rei que queimará os ossos dos sacerdotes sobre esse altar e não temos dúvida que isso acontecerá! De fato, cerca de duzentos anos depois a profecia se cumpriria! Impressionante! O profeta anônimo que veio de Judá realmente é uma figura que nos inspira. Mas estou convencido que podemos aprender muito mais fazendo um contraste entre o Homem de Deus e o Profeta Velho!
Para mim esse profeta velho serve de metáfora para muitas coisas, principalmente para nós que somos pastores e ministros da palavra. A principal lição que esse texto deixa é que o ministério pode perder o seu encanto! Podemos ter tido um começo extraordinário, mas podemos terminar encostados. Não tenho dúvida alguma que muitos companheiros da causa do mestre continuam no ministério simplesmente porque não tem mais para onde ir. Já passou o tempo de estudarem, ingressar numa carreira pública ou exercer alguma profissão. Muitos se tornaram prisioneiros do ministério! Não estou me referindo às pressões do ministério que testam nossas vocações e que nos fazem muitas vezes pensar em parar. Não, não é isso. Assim como os profetas bíblicos, acredito que todo pastor vocacionado já teve a sua vocação testada e em muitos casos a vontade de parar ou fazer uma outra coisa passa pela mente.
Essa história vai muito além disso. Ela revela que podemos estar no ministério simplesmente por uma mera conveniência. Quando isso acontece, as consequências são extremamente danosas – a igreja passa a ser vista apenas como uma fonte de renda. Passa a ser uma ovelha que serve somente para nos fornecer o leite, a lã e a carne! Essa sem dúvida é uma clara prova que o valente está em rota de queda! O seu ministério está em declínio e a sua vocação em queda livre. Essa é a lição que o Profeta Velho nos ensina! Deus trouxe o Homem de Deus, que morava em Judá, situado no reino do Sul, para profetizar em Betel, localizado no reino do Norte. Por quê? Porque o Profeta Velho que ali residia não servia mais como vaso profético!
Esse “cansaço” ministerial pode ser percebido em números. Veja o que detectou um Instituto de Pesquisas quando entrevistou dezenas de pastores:

1.      80% crêem que o exercício do ministério tem empobrecido sua vida familiar.
2.      33% crêem que a igreja é responsável pelos desastres familiares em suas famílias.
3.      50% sentem-se incapazes para o exercício ministerial.
4.      70% têm uma auto-estima mais baixa hoje do que quando começaram o ministério.
5.      37% estiveram ou estão envolvidos em uma aventura sexual ilícita com membros de sua igreja.
6.      70% disseram que não tem um só amigo.
7.      40 % pensam seriamente em desistir do ministério.

Isso é extremamente grave! Longe de ser algo a ser aspirado (1 Tm 3.1), o Ministério pastoral passou a se tornar um fardo! Na história do Profeta Velho descobrimos algumas lições que nos ajudarão a entender esse fenômeno:
Em primeiro lugar, vemos que o Homem de Deus entrou em Betel, mas Betel havia entrado no Profeta Velho – “Eis que um homem de Deus veio de Judá com a palavra do Senhor a Betel (...) E morava em Betel um profeta velho” (v.1, 11).
O rei Jeroboão, filho de Nebate, havia construído dois altares no reino do Norte, um em Dã e outro em Betel. A razão era impedir os nortistas de irem até Jerusalém, no reino do sul, para fazer os seus sacrifícios no famoso templo de Salomão. Foi quando ele oferecia sacrifícios nesse altar de Betel que foi confrontado pelo homem de Deus! Nessa ocasião Betel havia se tornado um local de adoração idólatra e cultura pagã. Era ali onde morava o Profeta Velho. Sem dúvida, esse profeta velho já havia visto o rei Jeroboão fazer sacrifícios outras vezes nesse altar, mas não fizera nada. E por que não? A resposta é que Betel, um centro de cultura pagã do reino do Norte, já havia penetrado com força em suas convicções. Ele convivia pacificamente com a idolatria institucionalizada sem levantar a sua voz contra ela!
Se não tomar os devidos cuidados, é muito fácil o obreiro se amoldar à cultura a sua volta. O meio pode exercer um poder tremendo sobre o pastor de tal forma que ele passa a se conformar com ele. Quando o apóstolo Pedro escreveu a sua Primeira Carta, ele admoestou os crentes: “Como filhos da obediência, não vos conformando com as concupiscências que antes havia na vossa ignorância” (1 Pe 1.14). A palavra grega syschematizo, traduzida como conformando, pode ser traduzida como amoldar (ARA). Tem, portanto, o sentido de: conformar-se com o estilo ou aparência externos, acomodando-se a um modelo ou padrão. Descrevendo dessa forma aqueles que se conformam com os desejos mundanos. A lição que fica é que o conformismo, mesmo quando é superficial ou aparente, pode se tornar algo fatal para o cristão. Vemos isso acontecer, por exemplo, quando pastores deixam suas igrejas ou ministérios para militarem na política partidária ou assumir algum cargo público comissionado. Alguns até mesmo se tornam fundadores de partidos políticos! Há alguma coisa errada em ser político? Não vejo nada de errado com o exercício da vida pública quando ela é exercida por pessoas que possuem aptidão e vocação para isso. Não creio que pastores possam ser incluídos nessa regra.
Em segundo lugar, o homem de Deus possuía a unção, mas o profeta velho apenas titulação!  - “Também sou profeta como tu” (v.18).
Era uma meia verdade! Ele era um profeta, mas não como o homem de Deus de Judá era! Ele possuía apenas o título de profeta, nada mais! Somente titulação não era suficiente para confrontar um rei pagão como Jeroboão. Era preciso unção e o profeta velho não a mais possuía. Às vezes olho ao meu redor e vejo muitos crentes apenas com a titulação. Possuem títulos e mais títulos, mas não possuem a unção que respalda a função que exercem. Já disse em outro texto que não é o oficio que determina a unção, mas a unção que determina o ofício. O que adianta possuir o título de apóstolo se as qualidades requeridas de um apóstolo não estão presentes? O que adianta possuir o nome de “pastor” se as habilidades pastorais há muitos deixaram de existir?
Em terceiro lugar, o homem de Deus era um homem de confronto, mas o profeta velho apenas de conforto! – “E clamou contra o altar com a palavra do Senhor (v.2)...E o rei disse ao homem de Deus: vem comigo à casa, e conforta-te; e dar-te-ei um presente (v7)...Então lhe disse (profeta velho): vem comigo à casa e come pão” (v.15).
Quando o rei Jeroboão viu o homem de Deus clamando contra o altar idólatra de Betel, procurou calar a voz do homem de Deus oferecendo-lhe vantagens. De fato ele tentou ofertar-lhe um presente! Como um profeta de Deus, o profeta anônimo rejeitou a proposta (v8). Imagino que o profeta velho noutro tempo recebeu oferta parecida e diferentemente do homem de Deus, ele aceitou as ofertas de Jeroboão. Ele mesmo agora queria agir de forma semelhante com o homem de Deus oferecendo-lhe um banquete em sua casa (v.15). O profeta velho havia se acomodado em Betel e a vinda do homem de Deus parece ter provocado um grande desconforto! O crente perde a sua voz profética quando procura se ajustar àquilo que é confortável em vez de buscar a vontade de Deus. A melhor situação que possamos nos encontrar é aquela que nos põe no centro da vontade de Deus!
Em quarto lugar, o homem de Deus falava em nome do Senhor, mas o profeta velho em seu próprio nome – “Este é o sinal de que o Senhor falou: Eis que o altar se fenderá, a cinza, que nele está, se derramará” (v.23)...“Um anjo me falou pela palavra do Senhor” (v18).
O homem de Deus se valia da autoridade espiritual que o Senhor lhe conferia para persuadir os betelenses da veracidade de suas palavras. Não é isso que vemos acontecer com o profeta velho – ao contrário do homem de Deus, ele se vale da mentira para induzir ao erro o homem de Deus. Ele disse que um anjo lhe falara, mas o cronista bíblico observa que isso não era verdade.  É possível que ele em um passado distante tivesse de fato visto um anjo, mas agora isso não estava mais acontecendo. Ele dependia de suas próprias habilidades para tentar persuadir as pessoas! Estamos falando em nome de quem? Do Senhor ou do nosso próprio?
Em quinto lugar, o homem de Deus via Deus fazer, mas o profeta velho apenas o que Deus fizera! – “O altar se fendeu, e a cinza se derramou do altar; segundo o sinal que o homem de Deus apontara pela palavra do Senhor” (v.5)... “E contou-lhe tudo o que o homem de Deus fizera aquele dia em Betel, as palavras que dissera ao rei; e as contaram ao seu pai” v.11).
O profeta velho vivia do passado! Não possuía nenhuma experiência nova, mas somente recordações de um passado distante. Enquanto o homem de Deus vivia em função da revelação divina, o profeta velho apenas da informação! O que ele sabia era aquilo que seus filhos viram acontecer e que posteriormente lhe contaram. O homem de Deus via Deus fazer enquanto o profeta velho sabia por boca dos outros aquilo que Deus fizera! Imagino seu saudosismo da seguinte forma: eu já também profetizei; orei por enfermos e eles foram curados; falei em línguas desconhecidas quando fui batizado no Espírito Santo e possuía uma íntima comunhão com o Senhor! Todas coisas feitas em um tempo passado! Foi D.L. Moody que disse: “Viver de experiências passadas é viver do maná envelhecido”!
Em sexto lugar, o homem de Deus possuía caráter, mas o profeta velho apenas o carisma! – “E clamou ao homem de Deus, que viera de Judá, dizendo: Assim diz o Senhor: Porquanto foste rebelde à boca do Senhor, e não guardaste o mandamento que o Senhor teu Deus te mandara; antes voltaste, e comeste pão e bebeste água no lugar de que te dissera: Não comerás pão nem beberás água; o teu cadáver não entrará no sepulcro de teus pais” (v.21,22).
O profeta velho profetizou! E mais: o que ele disse de fato aconteceu (v.24). Como pode alguém que mentiu minutos antes profetizar e aquilo que ele profetizou acontecer de fato? Há muitas conjecturas teológicas sobre esse incidente, mas o fato é que o profeta velho possuía carisma, embora não tivesse caráter! Para ser um homem de Deus é necessário possuir carisma e caráter. Conheço dezenas de homens e mulheres que possuem muita unção, mas pouco ou nenhum caráter. Casam e se divorciam como quem troca de roupa e ainda assim cantam e pregam com “unção”.