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sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Queda de pastores - um fenômeno muito além da psicanálise!


Texto extraído do meu livro: POR QUE CAEM OS VALENTES?, CPAD.

Estávamos em um culto no ano de 1983, eu era um novo convertido, mas consigo ainda lembrar com precisão da mensagem pregada naquele domingo. J. Figueroa,1 um pregador pentecostal, era conhecido por sua eloqüência e poderosa voz profética. Ele fora convidado naquele dia para ser o preletor em nossa igreja. O pequeno templo estava superlotado, todos procuravam uma melhor acomodação para ouvir a Palavra de Deus. A fama de ser um grande pregador do evangelho fazia a multidão esperar com expectativa o momento da preleção daquele irmão. Naquela noite, ele inspirara-se na visão do vale de ossos secos para falar do poder restaurador de Deus (Ez 37.1-14). Com uma unção incomum e um carisma contagiante, discorreu sobre o seu tema. Até então, não conhecia ninguém que pregasse com tanta clareza, eloqüência e conhecimento bíblico como aquele amado pastor. As lágrimas corriam copiosamente na face dos presentes. Dezenas de pessoas aglomeravam-se em frente ao altar para emendar os seus caminhos, muitas outras entregaram suas vidas ao Senhor Jesus.
Depois daquele dia, tive o privilégio de ouvir aquele irmão outras vezes. Acontecia sempre a mesma coisa: conversões, reconciliações e um forte sentimento da presença de Deus quando ele pregava. O seu nome tornou-se uma celebridade entre os pentecostais de meu estado, todos gostariam de solicitá-lo como preletor de seus congressos e cruzadas. A sua igreja, mais do que as outras, promovia freqüentemente eventos de natureza evangélica.
Certo dia, no verão de 1984, eu, meu irmão e um primo fomos participar de um evento promovido pela igreja daquele obreiro. Foi ali que conhecemos Madalena, uma jovem simpática, mas sem muita beleza física. Ela era membro da igreja de J.Figueroa. Naquele culto, como era costume acontecer, J. Figueroa pregou com uma unção assoberbante.
Os anos passaram e por diversas oportunidades tive o privilégio de ouvir J. Figueroa pregando. Certo dia, ao chegar no templo onde me congregava, observei que um grupo de irmãos conversava reservadamente. Pelo baixo tom de voz deduzi que o assunto era sigiloso. Ao me aproximar mais um pouco, ouvi a frase que gostaria de jamais ter ouvido na minha vida: J. Figueroa caiu em adultério com a Madalena. Fiquei estupefato ouvindo aquele irmão ainda com sua voz embargada continuar o seu relato. Aquele irmão continuou a sua narrativa dizendo que J.Figueroa envolveu-se com Madalena quando a aconselhava em seu gabinete pastoral.
Muitas vezes ouvimos relatos como este, não é novidade para ninguém. Mas o que leva um obreiro tão bem-sucedido em seu ministério a jogar tudo fora para desfrutar de uma aventura sexual? Por que alguém estaria disposto a destruir não somente a sua vida, mas também a sua família? A última vez que tive notícias de J. Figueroa, ele havia abandonado a sua família para juntar-se a uma outra mulher, que não era a Madalena. Segundo um amigo que o conhece de perto, a vida daquele ex-obreiro tornou-se um verdadeiro inferno. Por quê? Um Simples Fenômeno de "Transferência"?
Para um psicanalista experiente, o que ocorreu entre J.Figueroa e a jovem Madalena foi simplesmente aquilo que os analistas denominam de transferência.2 A jovem Madalena teria procurado J. Figueroa para ser aconselhada acerca de uma desilusão sentimental que tivera. J. Figueroa querendo melhor ajudar a Madalena procurou conhecer melhor a sua história. Os dois tornaram-se muito íntimos durante as sessões de aconselhamento. Por fim, estavam completamente apaixonados um pelo outro. O fim você já conhece. De acordo com a teoria psicanalista, aquela jovem viu em J. Figueroa a figura de seu pai.
Um modelo ideal que ela projetou como sendo perfeito. J. Figueroa tornou-se seu príncipe encantado, o homem que ela sempre sonhara. A relação pastor/ovelha, devido às suas peculiaridades, acabou por criar esse fenômeno da transferência. O aconselhado enxerga em seu conselheiro o seu herói, a partir daí projeta em sua mente que essa é a pessoa que ele precisa em sua vida. Não medirá esforços para ter uma aproximação maior com o seu modelo. Fará de tudo para agradar-lhe: desde presentes até mesmo a gratificação sexual.
Todo pastor de alguma forma envolve-se no ministério de aconselhamento. Não há como escapar dessa prática, os membros necessitam de uma palavra de seu pastor. Essa proximidade peculiar ao próprio ministério de aconselhamento cria as condições para que fatos como esse aconteçam. Mas seria esse um fenômeno meramente psicanalítico? Acredito firmemente que não.

Um Dardo Apontado para Você

 Há um tempo tive uma experiência que me fez lembrar da história de J. Figueroa. Eram aproximadamente 2h30min da madrugada de uma segunda-feira quando acordei. O sonho que acabara de ter deixou-me inquieto. Sonhara que um de meus irmãos que mora em um outro estado da federação acabara de chegar. Ele vestia roupas militares, trazia uma mochila sobre as costas, os seus gestos demonstravam que viera em uma missão.
Havia muito tempo que não o via; quando o contemplei, indaguei-o: "O que trouxe você aqui?" A sua resposta foi direta: "Vim para avisar-lhe que há um dardo apontado para você". Foi quando despertei.
Nessa época, era funcionário da Polícia Federal, e à noite dava aulas em uma escola teológica. Naquele dia fui para o serviço muito pensativo, indagava para mim mesmo: O que isso quer dizer?
No meu íntimo, sentia que alguma investida do Diabo estava a caminho, mas não sabia como isso aconteceria.
Na quarta-feira encontrava-me na instituição teológica da qual era professor. Não fosse um pequeno incidente ocorrido com uma aluna, aquele seria um dia normal como os outros. Aquela aluna parecia estar com muito mau humor, procurei estimulá-la
para a aula, afinal era uma das melhores alunas da minha disciplina.
Os meus esforços foram em vão. Terminada a aula, uma de suas colegas confidenciou-me algo que me fez estremecer. Perguntou-me se eu sabia a razão que levara aquela aluna a estar tão mal- humorada. Respondi negativamente, e ela então completou: "Ela está apaixonada por você".
Jamais imaginara que aquilo fosse de fato verdade. A partir da revelação feita por aquela jovem, as imagens daquele sonho que tivera dias antes começaram a fluir na minha mente: "Há um dardo apontado para você". Sim, Satanás investira contra mim, e era exatamente sobre aquilo que o Senhor me avisara. A partir daquele momento comecei a observar de perto todos os movimentos daquela jovem com respeito a minha pessoa. Descobri que o seu mau humor devia-se ao fato de não haver correspondência de minha parte aos seus sentimentos. Não tendo mais
nenhuma dúvida sobre seus sentimentos em relação a mim, resolvi conversar com ela para pôr fim naquele ardil do Diabo. Ela ficou embaraçada, pareceu ser pega de surpresa com minha posição firme em abortar aquele sentimento, mas por fim desistiu de sua fantasia. Aquele dardo inflamado do Diabo fora apagado. O Senhor me deu a vitória.
Estou convencido de que forças espirituais são as grandes responsáveis pela queda de muitos obreiros, muito mais do que temos imaginado. Em geral, a nossa compreensão desses fatos é tirada de algumas conclusões meramente circunstanciais.
Precisamos enxergar mais longe. Jack Halford, pastor de uma grande igreja pentecostal nos Estados Unidos da América, chama de batalha espiritual aquilo que um analista comumente denomina de transferência:

A maior batalha de toda a minha vida espiritual foi talvez travada na época em que tomei o importante compromisso de entrar na esfera da plenitude do poder e busca do Espírito Santo. Foi no início do meu ministério e sem o mínimo interesse da minha parte em "ter um caso" que, devagar, mas definitivamente, encontrei-me numa armadilha espiritual. Meu casamento era sólido e meu compromisso com Cristo e com a pureza espiritual era forte. Mas meu envolvimento freqüente com uma mulher de igual dedicação evoluiu para uma afinidade que, com o tempo, passou de amizade a uma paixão quase adúltera.
Durante aqueles dias sombrios de uma tentação sexual a que nunca me rendi, lutei muito em oração contra os tentáculos emocionais que estavam buscando estrangular minha alma e me arrastar para o pecado. Sozinho em casa, clamava a Deus — freqüentemente com surtos de linguagem espiritual que brotavam em intercessão pelo meu desamparo. Só posso louvar a graça e a soberania da misericórdia de Deus, por ter sido poupado da perda da minha integridade, casamento, ministério — minha vida!"1
Ao denominar sua experiência de armadilha espiritual, Halford interpretou corretamente a natureza desse conflito. Só teremos alguma chance diante de uma guerra dessa magnitude, se possuirmos a consciência de que ela está sendo travada em outro plano — nas regiões celestiais (Ef 6.12).
Isso, no entanto, não é uma forma de nos eximir de nossa responsabilidade moral, pondo a culpa somente no Diabo. Falaremos
mais adiante sobre a voluntariedade de nossas ações como uma condição necessária para que sejamos culpados ou inocentados moralmente. Somos feitos por Deus seres livres e com capacidade
de escolha. Todavia, não podemos esquecer de que "Não temos que lutar contra carne e sangue, mas, sim, contra os principados, contra as potestades, contra os príncipes das trevas deste século, contra as hostes espirituais da maldade, nos lugares celestiais" (Ef 6.10-12).
Sim, as Escrituras afirmam enfaticamente que o Diabo está em oposição não somente aos obreiros, mas a todos os crentes. Essa oposição, no entanto, não deve ser entendida como sendo sinônimo de domínio. Para que não fique a impressão de que estou dizendo que os demônios tem super poderes sobre os crentes, estarei colocando no final deste livro dois apêndices que fazem parte de um texto que escrevi tempos atrás sobre esse assunto.4 No Apêndice A, procurei mostrar que é completamente equivocada a crença que dá super-poderes aos demônios. Deve ser observado ainda que uma coisa é o cristão ser influenciado pelos demônios, outra, completamente diferente, é os demônios possuírem o crente. No Apêndice B, procuro mostrar também um correto entendimento sobre a natureza do pecado, a fim de que não o subestimemos. O crente não pode denominar de operação demoníaca aquilo que as Escrituras chamam de obras da carne.
Precisamos separar o joio do trigo e saber também que somos agentes morais.


Notas
1 Os nomes aqui são fictícios, mas a história é verídica.
2 "Designa em psicanálise, o processo pelo qual fantasias inconscientes
se atualizam no decorrer da análise e se exteriorizam
na relação com o analista" (DORON, Roland & PAROT, J.
Figueroae. Dicionário de Psicologia. Ed. Ática, São Paulo SP, 1998).
3 HAIFORD, Jack. A Beleza da Linguagem Espiritual. Editora
Quadrangular, São Paulo — SP, 1996.
4 GONÇALVES, José. Sabes o Grego? — Tira Dúvidas de

Grego Bíblico. Edições do autor, Altos — PI, 2001.