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terça-feira, 13 de agosto de 2013

Igrejas Ricas, crentes pobres - uma análise sobre as origens da teologia da prosperidade e suas consequências na igreja.

O surgimento da Teologia da Prosperidade

 Recentemente em um programa de TV, um grande pregador de auto-ajuda demonstrou toda a sua insatisfação com aqueles que dizem estar a igreja evangélica passando por uma crise. Disse que a igreja evangélica brasileira não está passando por crise nenhuma e usou os fatores de crescimento numérico e financeiro da igreja como exemplo evidente dessa prosperidade. O teólogo Luiz Alexandre Solano Rossi (2008, p.122,123), destaca que essa forma de avaliar a igreja, tomando por base a eficiência, é uma das características da Teologia da Prosperidade. Rossi observa que esse sistema de avaliação não é propriamente da igreja, mas das empresas de fast-food, e cita como exemplo a rede McDonalds. Em sua análise vivemos uma verdadeira McDonaldização da Teologia. Rossi comenta:
“É necessário explicar o conceito de McDonaldização e sua aplicação no modo de elabora teologia. George Ritzer desenvolveu o conceito de McDonaldização em seu livro The McDonaldization of Society. Para ele o McDonald’s é usado como exemplo maior – o paradigma – de um extenso e abrangente processo de McDonadização, que é: “o processo pelo qual os princípios dos restaurantes de “fast-food” chegam para dominar mais e mais setores da sociedade Americana, e também o resto do mundo” (2002:201). A importância deste processo de McDonaldização pode ser vista a partir de algumas particularidades e menciona apenas uma, como exemplo: o “índice Big Mac” publicado anualmente pela prestigiosa revista, The Economist: ele indica o poder de compra de várias moedas ao redor do mundo, com base no preço local (em dólar) do sanduíche Big Mac. O Big Mac é utilizado como referência porque ele é um produto vendido em pelo menos 115 países”.[i]
Seguindo o pensamento de George Ritzer, Rossi apresenta os quatro pressupostos básicos nos quais se firma a economia do McDonalds e como a Teologia da prosperidade os cristianizou. Segue um resumo deles:
1.       Eficiência
Deus é transformado em um grande Shopping Center. Uma máquina de venda extremamente eficiente. Rossi destaca que a eficiência é claramente vantajosa para os clientes (fiéis), que podem obter o que necessitam mais rapidamente e com menos esforço.
2.       Calculabilidade

O pensamento religioso, assim como o econômico, não está isento de ficar obcecado por números e quantidade. Nesse modelo as vidas das pessoas passam a ser medidas pelo que podem adquirir e comprar. Rossi observa que nós passamos a viver no perigoso reino do calcular, contar e quantificar.

3.       Previsibilidade

Aqui a teologia se torna prescritiva, centenas de testemunhos de “sucesso” são postos como exemplos a serem seguidos por todos aqueles que desejam prosperar. Deus fica limitado a operar de acordo como o modelo que é vendido pelos profetas da prosperidade.

4.       Controle
As pessoas são ensinadas a não pensar, mas somente “crer”. Dessa forma fica mais fácil a manipulação dos fiéis que procuram seguir a risca o que o mestre lhes ensinou.[ii]
Esses fatos nos mostram que a Teologia da prosperidade inspira preocupação para todo cristão que leva a sua fé a sério. Myer Pearlman (2007, p.252) nos adverte ao dizer:
“o vento suave da prosperidade é mais perigoso do que os tempestuosos. Eles nos dão um falso senso de suficiência própria e, imperceptivelmente, afastam a pessoa de sua dependência de Deus. Daí surge uma crise que revela todas as suas fraquezas espirituais. Estamos desfrutando de bom tempo em nossa vida? Graças a Deus por isso! Todavia, dediquemo-nos àquilo que fortalece a nossa espiritualidade enquanto é possível” (Mt 7.24-29).[iii]
Não há dúvida de que a Teologia da Prosperidade, também denominada de Confissão Positiva, se constitui uma ameaça à igreja cristã. De acordo com esse ensino é possível ao cristão viver em total saúde e prosperidade financeira. Ao pregar que os cristãos não precisam sofrer, adoecer e que podem enriquecer a custa de sua fé, esse ensino tem produzido uma geração de crentes materialistas. Deus se tornou refém de leis espirituais as quais Ele supostamente teria criado. O segredo é saber como usar essas leis para se conseguir o que quiser. Uma das fórmulas mais usadas é a da determinação, fórmula essa que carrega consigo a força de se mandar até mesmo em Deus! 
Ainda nos anos 90, uma crítica ácida à Teologia da Prosperidade foi feita pelo pastor David Wilkerson em uma série de mensagens pregadas em Nova Iorque, Estados Unidos da América. Ao refletir sobre a conversão do apóstolo Paulo, Wilkerson diz:
“Tivesse Saulo sido salvo em nosso tempo, ele teria sido sugado para o nosso mundo de engodo com uma “blitz” dos veículos de comunicação, um livro de sucesso de livraria, e convites para dar o seu testemunho a igrejas por toda parte [...]
[...] nesse cenário, entraria um mestre carismático da prosperidade e do sucesso. “Irmão Saulo, trouxe-lhe um exemplar autografado do meu último livro, Direitos da Aliança. Estou aqui para dizer-lhe que Deus deseja que o novo Saulo prospere e goze sempre de boa saúde. Se você aprender os meus segredos para o sucesso e a prosperidade, você não terá de chorar e agonizar como vem fazendo nestes últimos dias. Reivindique seus direitos! Tudo o de que você necessita é fé! Ela é tudo que você tem de pedir”! A isto Saulo responde: “Lamento, irmão! O Senhor me está mostrando muitas coisas grandiosas que devo sofrer por causa do seu nome. Estou à espera de Ananias. Não posso reivindicar nada, fazer nada, ir a parte alguma até que ele venha e imponha suas mãos sobre mim. Deus me dirá o que fazer a seguir.” O mestre responderia: “Mas você não passa de um bebê em Jesus! Tenho caminhado com ele há muito tempo e tenho conhecimento da revelação. Deixe-me ensinar-lhe!” a resposta simples de Saulo é: “Tudo o que sei é que ele me apareceu e conversou comigo!”[iv]
A gênese da Teologia da Prosperidade
Gnosticismo

Entre os séculos I e II d.C, a igreja cristã teve que refutar um ensino que demonstrou ser nocivo para a fé evangélica – o Gnosticismo.[v] Os registros históricos põem o gnosticismo como uma crença que tem sua origem antes de Cristo, e está associada aos babilônicos, gregos, sírios e egípcios. Esse ensino afirmava que a matéria era má e o espírito bom. Esse dualismo existente entre matéria e espírito, crença herdada do antigo platonismo, levou seus adeptos a negarem a realidade da matéria. Já que a matéria não era real, o sofrimento também não passava de ilusão. A sua influência sobre os cristãos da igreja primitiva pode ser percebida na crença que negava a natureza humana de Cristo. Em outras palavras, Cristo sendo bom não poderia habitar em um corpo material que era mau. Essa forma de crer levou o apóstolo João a combatê-los veementemente (1 Jo 2.23; 4.2,3;15).[vi]
Os gnósticos também ensinavam que somente os iniciados nesse movimento poderiam de fato obter o verdadeiro conhecimento. Na verdade a palavra gnosticismo traduz o termo grego gnosis – conhecimento. No entanto, como destaca John Piper e Justin Taylor (2007, p.30), esse conhecimento na verdade:

 “não era, de fato, o conhecimento intelectual – ainda que estivesse, frequentemente, acompanhado de complexa especulação filosófica. Era mais uma percepção privada, uma revelação interior, uma iluminação espiritual, vinda de dentro. Não era tanto o conhecimento de Deus que era buscado, pois Ele era considerado como sendo inefável, distante, afastado e inatingível [...] eles estavam muito mais interessados em buscar o que estava dentro do indivíduo”.[vii]

Dessa forma somente aqueles iluminados teriam de fato acesso ao real conhecimento. Havia, portanto, o conhecimento obtido pelos sentidos e aquele obtido pelo espírito. Somente aqueles que possuíam essa última forma de conhecimento, isto é, por revelação eram de fato iluminados. O perigo evidente desse tipo de conhecimento por revelação é a doutrina do cânon aberto. E o que considero mais grave – a criação de um outro cânon com a mesma autoridade da Bíblia e às vezes superior a ela. Em outras palavras, alguém pode receber uma suposta revelação e querer com ela moldar a crença e a vida das pessoas. É exatamente isso que temos presenciado nos últimos anos. Não faltam profetas que asseguram terem recebido da parte de Deus uma nova revelação e a partir da mesma procuram moldar o ensino bíblico de tal forma que o mesmo se ajuste ou adéqüe as mesmas.
Não duvido de forma alguma que Deus, através do Espírito Santo, continue a guiar o seu povo. Paulo mesmo ensinou à igreja de Corinto que uma das atribuições do Espírito Santo era fazer conhecida a mente de Deus por meio de revelações (1 Co 14.26,30). Todavia essas manifestações do Senhor, que operam através dos dons do Espírito Santo, nunca acrescentam nada as Escrituras, mas operam de acordo com seus princípios confirmando o que está Escrito. Muito diferente dos profetas da prosperidade que recebem revelações totalmente contraditórias em relação à Bíblia Sagrada. 

Novo Pensamento

A história do pensamento filosófico da escola conhecida como Novo Pensamento é bem longa. Na verdade o Novo Pensamento é uma criação de Phineas Parkhurst Quimby (1802-1866). Phineas Quimby estudou espiritismo, ocultismo, parapsicologia e hipnose. Na verdade Quimby havia estudado hipnose com Freidrich Anton Mesmer, médico austríaco, que acreditava que uma pessoa hipnotizada formava um campo magnético em torno de si. Quimby além de panteísta e universalista acreditava também que o homem tem parte na divindade.  Acreditava ainda que o pecado e a doença existem apenas na mente. Mary Baker Eddy (1821-1910), fundadora da Ciência Cristã, tornou-se discípula de Quimby após ser curada por ele. 
George A. Mather (200, p.340-341), resume a crença do Novo Pensamento como segue:

1.       Verdade
A busca pela verdade é um processo contínuo. O cristianismo se afasta desse pensamento no momento em que diz ser Deus o autor de toda a verdade e que a mesma está reunida nas declarações proposicionais da Bíblia.
2.       Deus
Não faz distinção entre criatura e criador. Diferentemente, o cristianismo revela que Deus é imanente e transcendente, isto é, Ele criou todas as coisas mas não se confunde com elas.
3.       Humanidade
A humanidade possui uma natureza divina. Buscar a Deus é olhar para dentro de si mesmo. A Bíblia revela que Deus é totalmente distinto da humanidade caída.
4.       Pecado
É uma ilusão da matéria. Não existe pecado contra Deus. Todo pecado e enfermidade são ilusões da mente. Se você mudar o seu pensamento, pode então curar a si próprio.
5.       Jesus Cristo e a salvação
Jesus foi um mestre, mas não o Salvador da humanidade. A salvação consiste em descobrir o ser divino que está dentro de si.[viii]

Confissão positiva        

A ponte entre as crenças do Novo Pensamento, Ciência Cristã e a fé evangélica foi feita primeiramente por E. W. Kenyon e posteriormente por Kenneth E. Hagin. Kenyon foi um cristão devoto, mas durante sua jornada bebeu muito dos ensinos da Ciência Cristã.  Os historiadores da igreja registram que ele freqüentou a escola de oratória de Charles Emerson. Emerson é tido pelos pesquisadores como um colecionador de religiões, inclusive fazia parte de sua coleção a Ciência Cristã. Através de Emerson, Kenyon conheceu os ensinos de Mary Baker, fundadora da Ciência Cristã. Por outro lado, Kenneth E. Hagin, que foi um pastor batista e posteriormente um zeloso pastor das Assembléias de Deus, foi influenciado por Kenyon, de onde obteve a maioria dos seus ensinamentos. Hagin fundou seu próprio ministério e tornou-se independente das Assembléias de Deus, passando a divulgar a teologia da prosperidade ou confissão positiva. 
Na sua Rhema Study Bible, Bíblia de Estudo comentada por Kenneth E. Hagin, ele explica o que significa Confissão Positiva:
“Poucos cristãos percebem o lugar que a confissão ocupa no plano das coisas de Deus. E é lamentável que sempre que usamos a palavra "confissão", as pessoas invariavelmente pensam de confessar pecados, fraquezas, e faltas. Isso é o lado negativo de confissão. há um lado positivo, e a Bíblia tem mais para dizer sobre os aspectos positivos de confissão que o negativo! O dicionário diz que confessar significa "reconhecer ou possuir, reconhecer fé". Confessar, de acordo com o dicionário, significa fazer confissão das faltas da pessoa, mas também diz que significa fazer confissão da fé da pessoa. O Novo Testamento fala de quatro tipos de confissões: (1) os ensinos de João Batista e Jesus relativo à confissão dos pecados dos judeus; (2) a confissão do pecador hoje; (3) a confissão do pecado do crente quando ele está fora da comunhão com Deus; e (4) A confissão de nossa fé na Palavra de Deus”.[ix]
É exatamente nesse último modelo de confissão, que se percebe as maiores distorções do ensino bíblico. Em vez de se firmar na palavra de Deus, muitos crentes se apóiam somente em seus desejos, que na maioria das vezes são a expressão apenas de um desejo de consumo!
A Teologia da Prosperidade e seus principais ensinos
1.                  Divinização do homem

A partir de uma interpretação equivocada do Salmo 82.6, os teólogos da prosperidade criaram a doutrina dos “pequenos deuses”. Kenneth Kopeland, um dos mais proeminentes pregadores da Teologia da Prosperidade, afirmou certa feita:

“Cachorros geram cachorros, gatos geram gatos e Deus gera deuses”.[x]

A intenção dessa doutrina é ensinar a “teologia do domínio”. Sendo deus, o crente agora pode dominar sobre a terra! A Bíblia ao contrário diz que o homem é estruturalmente pó (Gn 2.7,19; 103.14). No capítulo 12 aprofundaremos a nossa reflexão sobre esse tema. Em seu mapeamento sobre a Teologia da Prosperidade, Ricardo Mariano observa que os mestres as Confissão Positiva “afirmam que, quando o homem “nasce de novo”, ele adquire a própria natureza dina. Logo, torna-se deus. Ricardo Mariano, pesquisador e sociólogo da USP, resume o pensamento dos principais teólogos da Prosperidade:

“Quando o homem nasce de novo ele toma sobre si a natureza divina e torna-se, não semelhante, mas igual, exatamente igual em natureza com Deus. A única diferença entre o homem e Deus torna-se em magnitude, Deus é infinitamente divino e nós finitamente divinos. O crente é uma encarnação de Deus exatamente como o é Jesus de Nazaré”, defende Kenneth Hagin (...) “Você não tem Deus morando dentro de você. Você é Deus”, afirma Kenneth Kopeland (citado em Gondim, 1993:88, 85).
“Tu és filho de um pai. E se tu és filho de um pai, tu tens as mesmas características e qualidades deste pai (...) fomos feitos um pouco menores que Deus (...) Tu és deus, com letra minúscula (...) Esta é uma congregação divina. Esta é uma congregação de deuses”, assegura Miguel Ângelo (Vós Sois Deuses, 22.9.91, fita k7 de sermão).
“Nós perdemos muitas bênçãos de Deus por não conhecermos a Palavra de deus (...) Se você tem a palavra de Deus, você é poderoso. Se você não é poderoso, Deus não está com você. Nos somos seres humanos, mas quando assumimos a Palavra de Deus é como se nós fossemos deuses poderosos. O crente tem que agir, operar, como se fosse um Deus (sermão de R.R. Soares, 7.12.91)”.[xi]

2.      Conhecimento adquirido por revelação

Como já foi dito, essa é uma herança gnóstica da Teologia da Prosperidade. Os gnósticos colocavam o conhecimento místico ou por revelação como sendo superior aquele adquirido pelos sentidos. Na verdade para os gnósticos não era possível conciliar razão com revelação. Os seguidores da Teologia da Prosperidade superestimam o conhecimento revelacional e chegam até mesmo a pô-lo em pé de igualdade com a Bíblia. Para os crentes ortodoxos o cânon encerrou-se com a inclusão do último livro da Bíblia – o apocalipse. Todavia aqueles que acreditam numa revelação que tem o mesmo valor da Escritura, crêem que o Canon ainda está aberto. Essas revelações além de irem além da Bíblia, acabam acrescentando novos elementos que supostamente ajudarão no seu entendimento.  Está aberto dessa forma o caminho para as heresias. A Bíblia todavia diz que nada pode ser posto em pé de igualdade com a Escritura nem ser acrescido a ela (Ap 22.18).

3.                  Demonização da salvação

Esse ensino chega ao extremo de dizer que Jesus quando morreu na cruz assumiu a natureza de Satanás. Dessa forma os proponentes da teologia da prosperidade acabam colocando o diabo como co-autor da salvação. Dizem que Jesus Cristo teve que nascer de novo no inferno a fim de conquistar a salvação. Assim a salvação não aconteceu na cruz quando Jesus bradou “Está consumado!”, mas somente quando ele voltou do inferno onde teria derrotado Satanás em seu próprio terreno. Para os teólogos da Prosperidade, quando Jesus bradou “Está consumado”, ele se referia ao fim da Antiga Aliança e não ao cumprimento do processo da Salvação na cruz. A Bíblia diz que a salvação foi conquistada na cruz por Jesus e que o maligno não tem parte com Ele (Mt 27.51; Jo 14.30).

4.                  Negação do sofrimento

Os crentes não precisam mais sofrer. Todo sofrimento já foi levado na cruz do calvário e o diabo deve ser responsabilizado por toda e qualquer situação de desconforto entre os crentes. Aqui há uma clara influência da Ciência Cristã que também não admitia a existência do sofrimento. A Bíblia diz que o cristão não deve temer o sofrimento nem tampouco negá-lo (Cl 1.24; Tg 5.10).
John Ankerberg e Dillon Burroughs (2010, p.53), escrevem que:

 “o sofrimento geralmente não é uma experiência agradável. No entanto, o bem pode ser encontrado em tempos de sofrimento, até mesmo nas situações mais extremas. Em nosso livro Defendin Your Faith (Defendendo a Sua Fé), compartilhamos algumas razões por que às vezes as pessoas experimentam o sofrimento:

·         Para nos tornarmos exemplos para os outros.
·         Para melhor nos compadecermos dos outros.
·         Para permanecermos humildes
·         Como uma ferramenta de aprendizado.
·         Para dependermos do poder de Deus.
·         Para crescermos no nosso relacionamento com Cristo (desenvolvendo o fruto do Espírito – Gálatas 5.22-23).
·         Para revelar a necessidade da disciplina de Deus em nossa vida.
·         Para promover a obra de Cristo (como quando os maus tratos a um missionário abrem oportunidades para impactar outros com o amor de Cristo).
Um grande exemplo pode ser encontrado em Filipenses 1.12-14, onde lemos:
“Quero ainda, irmãos, cientificar-vos de que as coisas que me aconteceram têm, antes, contribuído para o progresso do evangelho; de maneira que as minhas cadeias, em Cristo, se tornaram conhecidas de toda a guarda pretoriana e de todos os demais; e a maioria dos irmãos, estimulados no Senhor por minhas algemas, ousam falar com mais desassombro a palavra de Deus” (Fl 1.12-14).[xii]

A Teologia da Prosperidade e seu efeito colateral

1.      Profissionalismo no ministério

A primeira conseqüência danosa que a Teologia da Prosperidade causou pode ser vista nos púlpitos. O ministério que anteriormente era vocacional se tornou algo meramente profissional. Os pastores passam a serem vistos agora como executivos bem sucedidos! O carreirismo profissional suplantou a vocação espiritual. O pastor passa a desenvolver sua atividade como qualquer outro profissional liberal e não como um ministro de Deus. Na verdade ele não mais pastoreia (1 Pe 5.2), mas gerencia sua igreja. A igreja passa a ter a mesma dinâmica administrativa de uma grande empresa!
Os velhos princípios que deram origem ao papado católico, agora se encontram dentro do arraial protestante. Alister McGrath observou que uma das razões que fez eclodir a grande Reforma Protestante do século XVI, foi a elitização e enriquecimento do clero.[xiii] Para muitos obreiros o simples título de pastor já não é suficiente, precisa-se acrescentar mais alguma coisa: apóstolo, bispo, pastor presidente, superintendente, chefe de setor, etc. Infelizmente o ofício tomou o lugar da unção e a forma suplantou a função.

2.      Espiritualidade mercantilista

A fé se tornou um bem de consumo como o é, por exemplo, uma TV de LCD! Os antigos adoradores foram transformados agora em consumidores. Correntes e mais correntes de prosperidade financeira estão na ordem do dia de dezenas de igrejas e todas superlotadas com seus clientes. Já existem até mesmo igrejas que contratam institutos de pesquisas para verificarem se abrir uma igreja em determinado bairro é viável. Pode ser que não seja lucrativo! (1 Tm 6.5).[xiv]


3.      Ênfase no sentimentalismo

A Teologia da Prosperidade deixou os sentimentos à flor da pele. O que vale hoje é o conhecimento sensorial e as emoções fortes. Aqui o mais importante não é o que a Bíblia diz, mas o que o crente sente! Se algo é sobrenatural, espetacular e tremendo, então é aceito sem se questionar se é bíblico ou não! Vale mais a emoção do que a razão. A Escritura, no entanto, mostra que não devemos superestimar nossas emoções nem tampouco anular nossa razão (1 Co 14.23; 14.14,15; Rm 12.1,2).[xv]

4.      Narcisismo e hedonismo

O narcisista é aquele que só pensa nele e nunca nos outros (Fl 2.4). Na verdade o mito grego de Narciso diz que ele ficou admirando a sua própria beleza que era refletida pelas águas de um lago. Ficou tão maravilhado pelo reflexo de sua imagem que caiu dentro do lago e se afogou. A Teologia da Prosperidade tem gerado milhares de crentes narcisistas. Estão morrendo e matando os outros. Por outro lado, o hedonista é aquele que vive em função dos prazeres. O prazer não é um mal em si, mas quando se transforma na principal razão da existência se torna pecaminoso.[xvi]

5.      Modismos

De vez em quando aparece uma nova onda no meio dos crentes. São modismos teológicos para todos os gostos. Antes era o cair no espírito; os dentes de ouro; a unção do riso, etc. Atualmente a lista está bem maior. Devemos observar que Deus é soberano para fazer cair a quem ele quiser; para dar dente de ouro se assim o desejar ou ainda para levar o crente a se alegrar nele. Na história do pentecostalismo clássico há dezenas de relatos, fartamente documentados, que atestam esse fato. Quando isso ocorria era como resultado de uma ação soberana de Deus! O erro está em querer transformar em norma aquilo que ocorre como conseqüência de uma ação exclusiva de Deus! O Espírito Santo é livre para operar como quiser (1 Co 12.11).[xvii] 

6.      Queda dos ideais

Outra conseqüência terrível causada pela Teologia da Prosperidade no meio do arraial evangélico é a queda dos ideais cristãos. Ao criar essa mentalidade de mercado e transformar os crentes em consumidores, a Teologia da Prosperidade acabou esvaziando os ideais do reino de Deus. Para que buscar o céu se é possível possuir tudo aqui na terra? A escatologia bíblica é trocada por uma teologia puramente pragmática (Cl 3.2).
Para o sociólogo Ricardo Mariano (2005, p.158), a teologia neopentecostal:

 “está operando e promovendo forte inversão de valores no sistema axiológico pentecostal. Faz isso ao enfatizar quase que exclusivamente o retorno da fé nesta vida, pouco versando acerca da mais grandiosa promessa das religiões de salvação: a redenção após a morte. Além de que, em vez de valorizar temas bíblicos tradicionais de martírio, auto-sacrifício, isto é, a “mensagem da cruz” – que apregoa o ascetismo (negação dos prazeres da carne e das coisas deste mundo) e a perseverança dos justo no caminho estreito da salvação, apesar do sofrimento, das injustiças e perseguições promovidas pelos ímpios contra os servos de Deus -,  a Teologia da Prosperidade valoriza a fé em Deus como meio  de obter saúde, riqueza, felicidade, sucesso e poder terrenos. Em vez de glorificar o sofrimento, tema tradicional no cristianismo, mas definitivamente fora de moda, enaltece o bem-estar do cristão neste mundo”.[xviii]
Prosperidade é bíblica, mas os excessos criados por uma teologia que fomenta o materialismo não é. Devemos nos resguardar das excrescências criadas pela Teologia da Prosperidade no que concerne à doutrina cristã. Nenhum crente necessita aderir às formulas inventadas pelos pregadores da prosperidade para poder prosperar. A verdadeira prosperidade vem como conseqüência de um correto relacionamento com Deus que é fruto de um coração obediente. 






[i] ROSSI, Luiz Alexandre Solano. Jesus Vai ao McDonalds – teologia e sociedade de consumo. Ed. Fonte Editorial, 2008.
[ii] Veja uma análise detalhada sobre esses pressupostos no livro Jesus Vai ao McDonalds, p. 124-140.
[iii] PEARLMAN, Myer. Atos – a igreja primitiva na força e na unção do Espírito. CPAD, 2007.
[iv] WILKERSON, David. David Wilkerson Exorta a Igreja – um chamado à obediência e a humildade. p.159, Ed. Vida.
[v] “Movimento religioso dos primeiros séculos da era cristã e considerado herético pela Igreja Católica Antiga, ainda que não exista consenso sobre as suas origens. Suas raízes vieram do helenismo greco-romano. Insistiam numa salvação mediante uma sabedoria secreta ou gnosis. Proclamavam o conhecimento superior baseado especialmente em princípios filosóficos, mistérios e iniciação, certas doutrinas cristãs e elemento da magia. Seu caráter eclético permitiu-lhe penetrar nas comunidades cristãs dos primeiros séculos. O gnosticismo se caracteriza por um dualismo ontológico, a luta entre Deus transcendente  e um demiurgo. A criação do mundo material é o resultado da queda da “Sofia”. Um redentor enviado por Deus traz a salvação mediante a gnosis secreta. Alguns estudiosos falam de três tipos importantes de gnosticismo: mitológico, filosófico-religioso e o mágico vulgar. Outros ensinam particularmente sua mistura com a fé cristã, assim como certas crenças orientais e judias, e sua presunção de alcançar um conhecimento intuitivo e misterioso acerca dos assuntos divinos. Deve-se falar-se, sem dúvida, de “sistemas gnósticos” mais que de gnosticismo, devido a variedade de idéias e interpretações a respeito de certos princípios mais ou menos básicos. Nas últimas décadas se organizou um alto número de “igrejas gnósticas” em vários países latino-americanos. A proliferação das seitas tem sido uma constante na história do gnosticismo e dos sistemas gnósticos” (RAMOS, Marcos Antonio: Nuevo Diccionario De Religiones Denominaciones Y Sectas. electronic ed. Nashville : Editorial Caribe, 2000, c1998, Tradução livre do autor).
[vi] Em seu comentário da primeira epístola de João, o erudito presbiteriano James Montgomery Boice destaca que João ao escrever sua carta “está pensando principalmente a respeito dos falsos mestres, os gnósticos, a igreja para qual ele está escrevendo com o objetivo de fundar sua própria igreja. Ele os chama de “anticristos” e mostra os contrastes ente eles e os verdadeiros filhos de Deus” (MONTGOMERY, James Boice. As Epístolas de João. p. 80,81, Casa Publicadora das Assembléias de Deus.
[vii] PIPER, John & TAYLOR, Justin. A Supremacia de Cristo em um Mundo Pós-moderno. Casa Publicadora das Assembléias de Deus, Rio de Janeiro, 2007.
[viii] MATHER, George & NICHOLS, Larry A. Dicionário de Religiões, Crenças e Ocultismo. Ed. Vida, 2000.
[ix] HAGIN, Kenneth. Rhema Study Bible, lesson 12: Cofession: Key to Unlocking Faith. Kenneth Hagin Ministries, P.O. Box 50126, Tulsa, Oklahoma 74150-0126. USA.
[x] Conforme citado por Paulo Romeiro em Suer-Crentes. Editora Mundo Cristão.
[xi] MARIANO, Ricardo. Neopentecostais – sociologia do novo pentecostalismo no Brasil. Loyola.
[xii] ANKERBERG, John & BURROUGHS, Dillon. Por que Deus permite o Sofrimento e o Mal?, Ed. Holy Bible, São Paulo.
[xiii] MACGRATH, Alister. As Origens Intelectuais da Reforma. Ed. Cultura Cristã.
[xiv] Foi exibido em um programa jornalístico de uma grande rede de Televisão brasileira a negociação de uma igreja feita por dois pastores. Na negociação um dos interessados na aquisição da igreja queria garantias que receberia o templo com os crentes dentro. O vendilhão assegurou que o barganhador não somente receberia o templo “com crente e tudo mais”, mas também garantiu que o negócio seria vantajoso, já que o dízimo dos crentes tinha tudo para crescer!
[xv] Charles Malik em um discurso no Billy Graham Center, disse: “Devo ser franco com vocês: o antiintelectualismo é o maior perigo que o cristianismo evangélico enfrenta. A mente, compreendida em suas maiores e mais profundas faculdades, não tem recebido suficiente atenção. No entanto, a formação intelectual não ocorre sem uma completa imersão, durante anos, na historia do pensamento e do espírito. Os que estão com pressa de sair da universidade e começar a ganhar dinheiro, trabalhar na igreja ou pregar o evangelho não têm idéia do valor infinito de gastar anos dedicados à conversação com as maiores mentes e almas do passado, desenvolvendo, afiando e aumentando o seu poder de pensamento. O resultado é que o terreno do pensamento criativo é abandonado e entregue ao inimigo. Quem, entre os evangélicos, pode enfrentar os grandes pensadores seculares em seus próprios termos acadêmicos? Quem, entre os estudiosos evangélicos, é citado pelas maiores autoridades seculares como fonte normativa de história, filosofia, psicologia, sociologia ou política? O modo evangélico de pensar tem uma mínima oportunidade de se tornar dominante nas grandes universidades da Europa e da América que modelam toda a nossa civilização com seu espírito e suas idéias? Por uma maior eficácia no testemunho de Jesus Cristo, bem como em favor de sua causa, os evangélicos não podem se dar ao luxo de continuarem vivendo na periferia da existência intelectual responsável” (MORELLAND, J.P. & CRAIG, William Lane. Filosofia e Cosmovisão Cristã. Ed. Vida Nova, 2005)
[xvi] Vez por outra sai na mídia “congressos evangelísticos” e de “avivamento” feito dentro de grandes navios cruzeiros ou na Terra Santa. Não há nada de errado em se fazer turismo em um navio ou em Israel, mas algo está errado quando se dá uma roupagem espiritual a isso, somente para vender o pacote de passagens ou aumentar a conta financeira de um pregador famoso. Por que não se faz essas turnês nas favelas ou nos rincões nordestinos?
[xvii] Veja o verbete Modismos Pentecostais e Fenômenos Pentecostais na obra: Dicionário do Movimento Pentecostal, Isael Araújo. CPAD.
[xviii] MARIANO, Ricardo. Neopentecostais – sociologia do novo pentecostalismo no Brasil. Ed. Loyola.