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terça-feira, 13 de agosto de 2013

Educação cristã - quatro perspectivas no contexto da pós-modernidade.


Eliseu e a escola dos profetas



Por diversas vezes vemos a expressão “filhos dos profetas (hb. bene ba-nabiim)” aparecer nos livros de 1 e 2 Reis. Observamos pelas Escrituras que os filhos dos profetas estavam radicados em locais como Betel, Jericó e Gilgal (1 Rs 20.35; 2 Rs 2.3,5,7,15; 4.1, 38 e 6.1). O contexto dessas passagens não deixa dúvidas de que esta expressão pode ser entendida como sendo sinônimo para “Escola de Profetas”.
Esse fato serve para nos mostrar que a educação religiosa ou formal já recebia destaque no Antigo Israel. Deve ser lembrado que essas escolas de profetas não tinham como propósito ensinar a profetizar. Isso é uma atribuição divina. Todavia a Escola de Profetas é um testemunho vivo de que o povo de Deus em um passado tão distante se preocupava em passar as gerações posteriores sua herança cultural e espiritual.
Entender os princípios que fundamentavam a Escola de Profetas é de suma importância para a educação cristã do século XXI, pois através deles é possível fazer um contraste entre o ensino bíblico e o paradigma educacional emergente. É um fato que o paradigma educacional da cultura ocidental vem sofrendo mudanças radicais nos últimos anos. Esse fato tem provocado o espanto de especialistas que demonstram preocupação diante dos novos desafios impostos por essa reviravolta no mundo dos valores. Mas não é somente a cultura secular que tem refletido os efeitos dessas mudanças de valores na educação. A igreja evangélica como uma instituição formadora de valores também espelha essas mudanças.
O que a igreja deve saber sobre esse novo modelo ou paradigma educacional emergente e como agir diante dele? O que a Escola de Profetas, liderada pelo profeta Eliseu, tem a nos ensinar? É a pergunta que nos proporemos responder aqui.
Antes de estudarmos a Escola de Profetas como uma entidade dedicada à instrução religiosa, procurarei dar uma visão panorâmica sobre o novo modelo educacional, também denominado de Paradigma Educacional Emergente.
Os valores fundamentais da educação
Em seu livro Os Valores Fundamentais, o teólogo e filósofo italiano Battista Mondin trouxe uma importante reflexão sobre o valor da educação hodierna. Mondim observa que a escola é uma fábrica de cultura e que para ela realizar essa função, deve ter em vista o cultivo do homem, que ele destaca como sendo as exigências fundamentais de cada cultura. São elas: simbólica, tecnológica, ética e axiológica (porque quatro são os fundamentos da cultura: linguagem, costumes, técnicas e valores).
“A escola, como é conhecida e realizada hoje”, destaca Mondim “atua ao máximo somente as duas primeiras tarefas, a simbólica e a tecnológica. Provê a primeira com o estudo da língua, da escrita, da gramática, da história, da geografia, do desenho, da literatura, das ciências, da filosofia. A segunda, com a aprendizagem do uso de instrumentos e de maquinas. Ela deixa de lado, ao invés, (e nas escolas estatais parece até que isso é dever) tudo o que é mais necessário para a determinação do projeto-homem e de sua realização, isto é, as outras duas tarefas. Descubra, antes de tudo, a tarefa axiológica que é a de fazer a criança, o jovem, conhecer os valores absolutos, perenes, fazê-los conhecer e apreciar o valor absoluto, ajudá-lo a descobrir a vocação que o chama à realização de seu projeto, de seu valor. Consequentemente, deixa de ensinar aos estudantes o caminho para realizar o próprio projeto de humanidade que é o caminho da virtude” [1]
Ele destaca que no campo dos valores a escola anda na direção oposta daquilo que pretende uma instituição que é vista como uma fábrica de cultura, isto é, como uma instituição que cuida da formação do homem em sociedade. Para esse filosofo italiano, a escola age dessa forma quando:
“Critica e nega, sistemática e venenosamente, os valores absolutos, espirituais, transcendentes, perenes e favorece nos jovens a máxima libertinagem, ensinando um permissivismo completo. Assim, ela acaba por depauperar aquele tesouro precioso de sentimentos e instintos que a natureza doa à criança, ao invés de canalizá-la, como a água impetuosa de um rio para irrigar o terreno e torná-lo fecundo, permite que escapem livremente e que se transformem (como no caso da violência, da luxúria e da droga) em vícios que bloqueiam o caminho em direção da realização daquele valor absoluto, daquele projeto de humanidade a que somos chamados e destinados”.[2]
Dizendo isso de uma outra forma: a educação contemporânea com sua proposta de total rompimento com os valores tradicionais herdados da cultura judaico-cristã, promove uma educação secularizada onde não existem valores perenes ou absolutos nem tampouco a mais tênue noção de verdade. Em vez disso há apenas “verdades”, e valores relativos que devem ser ajustados ao comportamento do educando. Cada um tem a sua verdade, já que não existem mais metanarrativas e a história perdeu o seu sentido. A noção de certo e errado, verdade ou mentira, deixa de ser um fenômeno universal para se ajustar à localidade de cada cultura. Cada cultura tem a sua verdade e, portanto, a sua noção de valores ético-morais.
O relatório da UNESCO para a educação do século XXI
A fim de avaliar o impacto desse novo desafio que a educação do século XXI enfrenta, a UNESCO preparou um relatório minucioso. O relatório que foi presidido pelo educador francês Jacques Delors, aponta os desafios e os caminhos para o fenômeno educacional no mundo do século XXI.[3] A edição brasileira desse relatório foi apresentada pelo ex-ministro da educação Paulo Renato.
Em sua fala, Renato destaca aquilo que o Relatório Delors sintetiza sobre a realidade educacional global. Ele pôs em evidência esse novo cenário para esse paradigma educacional emergente, conforme demonstrado no Relatório Delors: “Existe hoje uma arena global na qual, gostemos ou não, é até certo ponto jogado o destino de cada individuo”. “Apesar de uma promessa latente, a emergência desse novo mundo, difícil de aprender e ainda mais difícil de prever, está criando um clima de incertezas, para não dizer de apreensão, que torna a busca de um enfoque verdadeiramente global para os problemas ainda mais angustiantes.”[4]
Observa-se que os educadores estão conscientes e preocupados com os novos desafios que a cultura emergente impõe sobre a educação. Da mesma forma a igreja como uma instituição social e formadora de valores não deve fazer vista grossa para esses alertas.[5]

Pressupostos apontados para a educação do século XXI

O ministro da educação indiano, Karan Singh, que também é um dos colaboradores do Relatório Delors, apontou alguns pressupostos de uma filosofia holística para a educação do século XXI. Devemos ficar atentos a esses pressupostos educacionais, pois serão eles que formarão a cultura das gerações vindouras. De acordo com Singh:

1.   O planeta Terra que habitamos e de que todos somos cidadãos é uma entidade única, fervilhante de vida; a espécie humana é, em ultima análise, uma grande família em que todos os membros são solidários; as diferenças de raça e de religião, de nacionalidade e de ideologia, de sexo e de preferências sexuais, de estatuto econômico social – embora em si importantes – devem ser repostas no contexto mais geral desta unidade fundamental.
2.   O ódio e o sectarismo, o fundamentalismo e o fanatismo, a inveja e o ciúme, entre pessoas, grupos ou nações, são paixões destruidoras que é preciso vencer agora que nos achamos no limiar de um novo século; o amor e a compaixão, a preocupação pelo outro e a caridade, a amizade e a cooperação devem ser estimuladas, agora que a nossa consciência desperta para a solidariedade planetária.
3.   As grandes religiões do mundo na luta pela supremacia devem parar de se combater, e cooperar para o bem da humanidade, a fim de reforçar, graças a um diálogo permanente e criativo entre as diferentes confissões, o filão de ouro que são as suas aspirações espirituais comuns, renunciando aos dogmas e anátemas que as dividem.
4.   A educação holística deve ter em conta as múltiplas facetas – físicas, intelectuais, estéticas, emocionais e espirituais da personalidade humana e tender, assim, para a realização deste sonho eterno: um ser humano perfeitamente realizado vivendo num mundo em harmonia.[6]
Não há como negar que esses pressupostos educacionais apontados por Singh refletem os princípios de uma educação holística, mística e destituída na sua grande maioria dos valores cristãos. Algo semelhante àquilo que Battista Mondim já havia criticado como princípios que estão na contramão de uma educação verdadeiramente humanística. O relatório, portanto, é bem intencionado, mas utópico na medida em que prega um ecumenismo universal entre todos os povos e religiões. São esses vetores que procuram nortear a educação secular contemporânea.
Merece destaque que esses mesmos pressupostos educacionais, vistos por uma outra perspectiva, são defendidos por renomados educadores. Em seu conceituado livro: O Novo Paradigma Educacional Emergente, a educadora Maria Cândida, resume esse modelo emergente como sendo:
1.      Construtivista – o ser humano está em constante processo de transformação diante de sua ação no mundo, em sua relação constante com o objeto. Pensar é resultado de uma construção, da ação do indíviduo sobre o objeto e da transformação desse objeto, que tem o educando como centro gerador em processo constante de construção.
2.      Interacionista – sujeito e objeto estão em constante interação de forma que um modifica o outro e modificam-se entre si.
3.      Sociocultural – o homem é um ser relacional que interage constantemente, através do dialogo, com seus pares e com o mundo físico.
4.      Transcendente ­ - isto quer dizer: ir além, ultrapassar-se, superar-se. O homem é um devir a ser.[7]

Essas são as tendências de uma nova Paideia, de um novo modelo educacional emergente. Embora seja perceptível a roupagem científica com que esse modelo está adornado, todavia é inegável que ele é mais religioso do que cientifico. Mais espiritual do que racional. O físico nuclear e adepto do misticismo oriental, Fritijof Capra, foi uma das primeiras vozes pós-modernas na defesa desse novo paradigma. Capra afirma:
Precisamos de um novo paradigma – uma nova visão da realidade, uma mudança fundamental em nossos pensamentos, percepções e valores. Os primórdios dessa mudança, da transferência  da concepção mecanicista para a holística da realidade, já são visíveis em todos os campos e suscetíveis de dominar a década atual”[8].
No livro de minha autoria, intitulado Defendendo o Verdadeiro Evangelho, mostrei as implicações que essa nova ciência tem sobre os valores cristãos, em especial sobre a Educação. Mais uma vez fiz uma análise das palavras de Fritjof Capra, principal guru dessa Nova Era:
“Vivemos hoje num mundo globalmente interligado, no qual os fenômenos biológicos, psicológicos, sociais e ambientais são todos interdependentes. Para descrever esse mundo apropriadamente, necessitamos de uma perspectiva ecológica que a visão do mundo cartesiana não oferece” (O Ponto de Mutação – a Ciência, a Sociedade e a Cultura Emergente p.14). Em outro texto, também de sua autoria, ele diz: “Não existe nenhum organismo individual que viva em isolamento. Os animais dependem da fotossíntese das plantas para terem atendidas as suas necessidades energéticas; as plantas dependem do dióxido de carbono produzido pelos animais, bem como do nitrogênio fixado pelas bactérias em suas raízes, e todos juntos, vegetais, animais e microorganismos, regulam toda a biosfera e mantêm as condições propicias à perspectiva da vida” (As Conexões Ocultas – a Ciência para uma Vida Sustentável).[9] 
O lado espiritual e místico desse novo paradigma fica claro em outro livro de Fritijof Capra, intitulado: O Tao da Física – um paralelo entre a Física Moderna e o Misticismo Oriental. Nessa obra, diz:
“Há cinco anos, experimentei algo de muito belo, que me levou a percorrer o caminho que acabaria por resultar neste livro. Eu estava sentado na praia, ao cair de uma tarde de verão, e observava o movimento das ondas, sentindo ao mesmo tempo o ritmo de minha própria respiração. Nesse momento, subitamente, apercebi-me intensamente do ambiente que me cercava: este se me assegurava como se participasse de uma gigantesca dança cósmica (...) senti o seu ritmo e ‘ouvi’ o seu som. Nesse momento, compreendi que se tratava da dança de Shiva, o deus dos dançarinos, adorado pelos hindus”.[10]
           
Desafios à educação contemporânea
É, pois, possível percebermos que o conflito existente entre a cultura moderna, fundamentada no modelo cartesiano, e a pós-moderna, fincada na física quântica e em princípios holísticos, está na desconstrução dos valores tradicionais da educação que esta ultima produz. O sociólogo polonês  Zygmunt Bauman, um dos maiores analistas do impacto que a cultura pós-moderna causa na educação contemporânea, escreveu sobre as dimensões desse conflito:  
“A história da educação conheceu muitos momentos críticos nos quais ficava evidente que premissas e estratégias já testadas e aparentemente confiáveis não davam mais conta da realidade e exigiam revisões e reformas. Contudo, a crise atual parece ser diferente daquelas do passado. Os desafios do presente desferem duros golpes contra a própria essência da ideia de educação, tal como ela se formou nos primórdios da longa história da civilização: eles questionam as invariantes dessa ideia, as características constitutivas da educação que resistiram a todos os desafios passados e emergiram intactas de todas as crises anteriores; os pressupostos que antes nunca haviam sido colocados em questão e menos ainda encarados como se já tivessem cumprido sua missão e necessitassem de substituição”.[11]
Vejamos, portanto, como esse sociólogo polonês analisa esse novo paradigma educacional:
1.   Um produto descartável

Bauman chama a atenção que para esse modelo emergente de educação, a simples “ideia de que a educação pode constituir em “produto” feito para ser apropriado e conservado é desconcertante, e sem dúvida não depõe a favor da educação institucionalizada”. Bauman diz acertadamente que visto desta forma a educação é um produto descartável, “um pacote de conhecimento criado para usar e jogar fora. A justificativa que os pais davam para convencer os filhos estudarem: “aquilo que você aprendeu ninguém vai poder tirar”, perde sua razão de ser.”

2.    Uma realidade instável

“Em todas as épocas”, observa Bauman, “o conhecimento foi avaliado com base em sua capacidade de representar fielmente o mundo. Mas como fazer quando o mundo muda de uma forma que desafia constantemente a verdade do saber existente, pegando de surpresa até os mais “bem-informados?”.
Ainda segundo ele, Werner Jaeger, que sem dúvidas foi um dos maiores pesquisadores e teóricos da Educação, destacava que os fundamentos da pedagogia e da aprendizagem se fundamentavam em dois pressupostos básicos, quais sejam: a ordem imutável do mundo e a natureza igualmente eterna das leis que governam a natureza humana. Bauman destaca que o “primeiro pressuposto justificava a necessidade e os benefícios da transmissão do conhecimento dos professores aos alunos. O segundo infundia nos professores a autoconfiança necessária para esculpir na personalidade dos alunos, como fazem os escultores com o mármore, a forma que se presumia sempre justa, bela, boa e, portanto, virtuosa e nobre”.[12]

A relação professor e aluno

Igualmente pertinente é o que Bauman chama de cultura off-line e on-line:

“Para os jovens”, destaca Bauman, “a principal atração do mundo virtual deriva da ausência de contradições e objetivos contrastantes que infestam a vida off-line. O mundo on-line, ao contrário de sua alternativa off-line, torna possível pensar na infinita multiplicação de contatos como algo plausível e factível. Isso acontece pelo enfraquecimento dos laços – em nítido contraste com o mundo off-line, orientado para a tentativa constante de reforçar os laços, limitando muito o numero de contatos e aprofundando cada um deles.”[13]
Depois dessa visão geral do novo paradigma educacional emergente e suas implicações na cultura judaico-cristã, voltemos, pois, à Escola de Profetas para uma avaliação dos seus fundamentos:
                 
1 Disseram os discípulos dos profetas a Eliseu: Eis que o lugar em que habitamos contigo é estreito demais para nós.
 2 Vamos, pois, até ao Jordão, tomemos de lá, cada um de nós uma viga, e construamos um lugar em que habitemos. Respondeu ele: Ide.  3 Disse um: Serve-te de ires com os teus servos. Ele tornou: Eu irei.  4 E foi com eles. Chegados ao Jordão, cortaram madeira.  5 Sucedeu que, enquanto um deles derribava um tronco, o machado caiu na água; ele gritou e disse: Ai! Meu senhor! Porque era emprestado.  6 Perguntou o homem de Deus: Onde caiu? Mostrou-lhe ele o lugar. Então, Eliseu cortou um pau, e lançou-o ali, e fez flutuar o ferro,  7 e disse: Levanta-o. Estendeu ele a mão e o tomou” (2 Rs 6.1-7)

Em primeiro lugar, a Escola de Profetas deve ser vista sob a perspectiva institucional ou estrutural.
1.      Noção de organização e forma
O texto de 2 Reis 6.1, mostra o lado institucional da Escola de Profeta. Eles viviam em comunidade e, portanto, careciam de um espaço físico não somente para habitar, mas onde pudessem ser instruídos: “Disseram os discípulos dos profetas a Eliseu: Eis que o lugar em que habitamos contigo é estreito demais para nós. Vamos, pois, até ao Jordão, tomemos de lá, cada um de nós uma viga, e construamos um lugar em que habitemos”. Observa-se nesse texto que a estrutura acabou ficando inadequada e um espaço maior foi reclamado. Para que se tenha uma educação de qualidade necessita-se de uma estrutura adequada. Não podemos educar sem primeiro estruturar!

2.      Noção de organismo e função
Essa Escola de Profetas estava sob uma supervisão e, portanto, possuíam um líder espiritual que lhes dava orientação. Os estudiosos acreditam que as Escolas de Profetas surgiram com Samuel (1 Sm 10.5,10; 19.20) e posteriormente se consolidou com a monarquia nos ministérios de Elias e Eliseu. No texto de 2 Reis 6.1, verificamos que esses discípulos dos profetas estavam sob a orientação do profeta Eliseu e era com o profeta de Abel-meolá que eles buscavam instrução. Eliseu não era apenas um homem com dons carismáticos capaz de prever o futuro ou operar milagres poderosos, mas também um profeta que possuía uma missão pedagógica. Nesse contexto a unção vem junto com a educação. 
Em segundo lugar, a Escola de Profetas deve ser vista sob a perspectiva teleológica, dos fins, dos objetivos.
1.      Treinamento
O texto de 2 Reis 2.16-16, mostra que fazia parte desse treinamento trabalhar sob as ordens do líder, obtendo assim permissão para a execução de determinadas tarefas: “Vieram-lhe [os filhos dos profetas] ao encontro e se prostraram diante dele em terra. E lhe disseram: Eis que entre os teus servos há cinqüenta homens valentes; ora, deixa-os ir em procura do teu senhor; pode ser que o Espírito do Senhor o tenha levado e lançado nalgum dos montes ou nalgum dos vales. Porém ele respondeu: Não os envieis.” Esse processo interativo entre o líder e o liderado, entre o educador e o educando, é vital para a produção do conhecimento. Em outras situações observamos que os filhos dos profetas, quando já treinados, podiam agir por conta própria em determinadas situações (1 Rs 20.35). O discipulado ocorre quando aquele que foi instruído é capaz de repetir com outros o processo do seu aprendizado.
2.      Encorajamento
Os expositores bíblicos observam que o profeta Eliseu não limitava o seu ministério à pregação itinerante e a operação de milagres, mas agia também como um supervisor de várias escolas de profetas nos seus dias. Nessas escolas ele fornecia instrução e encorajamento aos jovens que ali chegavam. O contexto dos livros de 1 e 2 Reis não deixam dúvidas de que esses dois profetas se preocupavam em transmitir à geração mais nova aquilo que aprenderam do Senhor. Nessas escolas, portanto, esses alunos eram encorajados a buscarem uma melhor compreensão da palavra de Deus.  Não há objetivo maior para um educador do que encorajar o educando a buscar a excelência no ensino.

Em terceiro lugar, a Escola de Profetas deve ser vista sob a perspectiva curricular, dos conteúdos.
1.      A Escritura
Quando fazemos um acompanhamento do ministério do profeta Elias, vemos que a Palavra de Deus fazia parte do conteúdo ensinado nas Escolas de Profetas. Eliseu recebeu essa herança. Quando se encontrava no monte Sinai, Elias se queixou que os israelitas haviam abandonado a Aliança com Deus, destruíram os locais de cultos e exterminaram os profetas (1 Rs 19.10). A palavra de Deus, em especial o livro de Deuteronômio, especificava que princípios e preceitos regiam a Aliança de Deus com seu povo. A Palavra de Deus era essa aliança! Assim como Elias, Eliseu também estava familiarizado com as implicações dessa Aliança. Era essa palavra que ele ensinava aos seus discípulos. É essa palavra que devemos ensinar hoje.  
2.      A Experiência
Tanto Elias como Eliseu eram homens experientes e compartilhavam com os outros aquilo que haviam aprendido (2 Rs 2.15; 2.19-22; 4.1-7, 42-44). No entanto, no contexto bíblico a experiência não está acima da revelação de Deus conforme se encontra escrita na Bíblia. A palavra de Deus é quem julga a experiência e não o contrário. Elias, por exemplo, afirmou que suas experiências tiveram como fundamento a palavra de Deus (1 Rs 18.36). Os mais jovens devem ter a humildade de aprender com os mais experientes e os mais experientes não devem desprezar os saberes dos mais jovens. O aprendizado se dá através do processo de interação e a experiência faz parte desse processo.
Em quarto lugar, a Escola de Profetas deve ser vista sob a perspectiva metodológica.
1.      Ensino através do exemplo
Os estudiosos estão de acordo que essas Escolas de Profetas seguiam o idealismo hebreu concernente à educação. Havia uma relação entre professor e aluno na comunidade onde viviam. A educação acontecia também na sua forma oral e o exemplo era um desses métodos adotados no processo educativo. Não há como negar que Eliseu ensinava através do exemplo. Há vários relatos sobre os milagres de Eliseu onde se percebe que o aprendizado acontecia através da observação das ações do profeta de Abel-meolá. Geazi, moço de Eliseu, sabia que seu mestre era um exemplo de honestidade. No Novo Testamento, Jesus Cristo se colocou como o exemplo máximo a ser seguido e Paulo também se pôs como um modelo a ser imitado (Mt 9.9; 1Co 11.1).
2.      Ensino através da palavra
Eliseu não deixou nada escrito. O que sabemos dele é através do cronista bíblico. Mas esse fato não significa que esse profeta não usasse a Palavra de Deus em sua vida devocional e também como instrumento de instrução na Escola de Profetas. A forma como esses homens julgavam o comportamento dos reis, aprovando-os ou reprovando-os não deixa dúvidas que eles usam a palavra de Deus escrita para discipular seus alunos. Eliseu, por exemplo, mediu a iniquidade de Acabe através da piedade de Josafá. Acabe era um rei mal por que não andava conforme a Palavra de Deus enquanto Josafá era estimado por fazer o caminho inverso.

Observamos através do ministério do profeta Eliseu que os filhos dos profetas pertenciam a uma escola dedicada ao ensino formal. Ali era ensinado a palavra de Deus tanto na sua forma oral como escrita. Esse fato é por só de grande relevância para nós porque demonstra a preocupação desse homem de Deus em passar a outros o conhecimento correto sobre Deus.
Os tempos mudam e a cultura também. Hoje sabemos que a educação secular possui grande importância e infelizmente para muitos é a única forma de educação existente. Não podemos negligenciar a educação humanista, mas não podemos de forma alguma perder de vista a dimensão espiritual do conhecimento.
Um ensino fundamentado na Bíblia, mesmo sem se tornar místico, atende aos propósitos de uma educação humanitária, conforme pretendido pelos educadores da UNESCO, que são:

1.      Aprender a conhecer – aprender a conhecer é algo que se refere não somente à aquisição de conhecimento, mas também à forma como o indivíduo lida com o conhecimento no desenvolvimento do seu cotidiano.
2.      Aprender a fazer – as aprendizagens devem evoluir e não podem mais ser consideradas como simples transmissão de práticas mais ou menos rotineiras.
3.      Aprender a conviver – Num primeiro nível, a descoberta progressiva do outro. Num segundo nível, e ao lado de toda a vida, a participação em projetos comuns. O outro aqui não se limita apenas ao individuo, mas a outros povos também.
4.      Aprender a ser – um sujeito capaz de tomar decisões na vida, dirigido por valores próprios e de maneira crítica.[14]



Notas do Capítulo 12



[1] MONDIN, Battista. Os Valores Fundamentais. Ed. Edusc, 2005.
[2] MONDIN, Battista. idem.
[3] DELORS, Jacques. Educação: um tesouros a descobrir – relatório para a UNESCO da Comissão Internacional sobre Educação para o século XXI. Editora Cortez/UNESCO/MEC. 10ª Edição, 2006.
[4] SOUZA, Paulo Renato. Educação – um tesouro a descobrir. Ed. Cortez, 10ª edição, 2006.
[5] Veja um estudo mais aprofundado sobre o assunto no livro de Jacques Delors: A Educação para o Século XXI – questões e perspectivas. Editora Artmed, Porto Alegre, 2005.
[6] Educação – um tesouro a descobrir.
[7] MORAES, Maria Cândida. O Novo Paradigma Educacional Emergente. Editora Papirus.
[8] CAPRA, Fritijof. O Ponto de Mutação – A Ciência, a Sociedade e a Cultura Emergente. Editora Cultrix , 1999.
[9] GONÇALVES, José. Defendendo o Verdadeiro Evangelho. CPAD, 2007.
[10] CAPRA, Fritjof. O Tao da Física – um paralelo entre a física moderna e o misticismo oriental. Ed Cultrix.
[11] BAUMAN, Zygmunt. Capitalismo Parasitário.ed. Jorge Zahar.  
[12] JAERGER, Werner. Paideia – a formação do homem grego. Editora Martins Fontes.
[13] BAUMAN, Zygmunt. Capitalismo Parasitário. Idem.
[14] DELORS, Jacques. Educação: Um Tesouro a Descobrir. Op.cit.

(Texto extraído do meu livro: PORÇÃO DOBRADA, CPAD